NOVO EP SOLO DE CONDE BALTAZAR TRAZ PARCERIAS COM MÚSICO ITALIANO

por Heitor Humberto 

Artista curitibano lança “Bob Uilson”, reunindo quatro faixas inéditas que passeiam pelo new folk e soft beats

 

Quando Conde Baltazar trabalhava em um escritório, o pessoal organizou um bolão para a Mega Sena da Virada. Não, ele não participou. Estava em uma reunião bem no dia em que fizeram a aposta. Sim, eles acertaram os números. E, sim, todos os seus colegas de trabalho ficaram ricos. Pode ser difícil de acreditar, mas a história é real.

 

Esse é um daqueles momentos em que qualquer pessoa vira a chave. Ele conta que ficou chocado com a coincidência. “Mas eu tinha o mapa para o tesouro”, explica hoje brincando com a metáfora. Nessa época, Conde já fazia alguns trabalhos relacionados à arte. O episódio acabou sendo decisivo para largar o figurino de escritório e os dias trancado em um edifício espelhado. Mergulhou em outro universo e foi absorvendo tudo o que podia. Sim, tornou-se ator, ilustrador, professor, músico e compositor. E agora está lançando um novo trabalho solo.

 

“Bob Uilson” é um EP com canções escritas em parceria com o músico italiano Bob Uilson, um artista de rua que Conde Baltazar conheceu quando esteve naquele país em 2016. “Eu estava caminhando em uma cidadezinha e o encontrei fazendo voz e violão. Parei para ouvir. Gostei de uma, de duas, de três… A gente começou a puxar papo e eu acabei tocando algumas músicas minhas. Rolou uma afinidade”, relembra o curitibano.

 

Três canções surgiram a partir daquele encontro. “O corpo cansou”, “Alvorada” e “Killing love” são faixas que colocam a voz do músico em um lugar diferente ao que estava acostumado em seus trabalhos anteriores, em composições que puxam para um new folk. O EP mostra ao mundo as composições que nasceram em um quarto de hotel.

 

“Fomos tomar uma cerveja, trocar ideia, tocar, compor. Acabamos indo para um hotel e passamos três dias juntos. Foi meio como um furacão. No último dia, voltamos para o hotel e ficamos a noite inteira. Mas algumas pessoas na cidade já estavam incomodadas com dois homens juntos e resolveram armar uma confusão. Tivemos que sair correndo. No dia seguinte, acabei indo embora e não voltamos a nos encontrar”, conta.

 

O músico tentou entrar em contato com Bob de várias formas, mas sem sucesso. Um ano e meio depois, Conde voltou à Europa, dessa vez para apresentar uma exposição em Barcelona. Aconteceu o improvável: os dois se viram em uma estação de metrô, mas em plataformas opostas. Cruzaram olhares por alguns segundos. E aí o trem de Bob chegou. Sim, ele entrou no vagão. Não, o reencontro acabou não acontecendo. “Nunca entendi por que ele entrou, mas foi então que eu decidi gravar as músicas”, complementa.

 

Já em 2020, com as três faixas sendo mixadas e masterizadas, Conde recebeu um envelope vindo da Itália. Dentro havia uma fita cassete. Sem um toca-fitas em casa, foi correndo ao centro, numa daquelas lojas que vendem aparelhos antigos. “Perguntei se poderia usar o toca-fitas apenas por um instante. O atendente foi super solícito. Dei o play e tinha uma música gravada. Era curta, chamada ‘Treasure land’. Fiquei completamente atordoado com aquele turbilhão de lembranças voltando”, conta animado. “Quis gravar aquela música de forma bem crua e incluir no EP. Ficou como uma hidden track, encerrando o disco, como se fosse um tributo”, conclui.

 

Dias antes, Conde havia ficado sabendo da morte de Bob. Em tempos de confinamento, mais do que nunca, lembranças são grandes tesouros, artigos valiosos. “Treasure land” é um recorte, uma foto em movimento em forma de música que fala sobre aquela última noite que os dois passaram juntos. Talvez essa seja a melhor definição para o mapa do tesouro, que o músico sabia que já tinha.

 

Do quarto para o estúdio

 

As quatro faixas de “Bob Uilson” trazem melodias leves, com bases harmônicas que vão crescendo e preenchendo espaços durante a audição. As letras refletem certa melancolia, um pessimismo que encontra breves respostas esperançosas, mas não muito. “O corpo cansou. O homem é ouro sem cor que leva a vida pra trás” entrega logo nos primeiros versos do EP. A simbologia segue até o refrão: “te amo, Esmeralda. Eu nem sei quem é o seu pai”. Mesmo em uma época complicada, seguimos em busca do brilho.

 

A produção ficou a cargo de TH Ramalho, colega de banda no Trombone de Frutas, que trabalhou nas bases apresentadas por Conde e teve total liberdade para indicar novos caminhos musicais ao compositor. O resultado foi um excelente casamento com sua voz, que agora explora regiões agudas com grande serenidade. Disso, surgiram beats que acompanham as canções, desde a tranquila “O corpo cansou” até a mais acelerada “Killing love”. Já, “Alvorada”, além de uma balada triste, é uma coleção de timbres que te jogam para clássicos perdidos da música brasileira do fim dos anos 70.

 

Ao reunir e gravar as quatro canções, Conde Baltazar coloca trilha sonora em um ciclo de encontros e lembranças, que agora ganham chegam a outros ouvidos em formato de EP e, em breve, shows - assim que os reencontros forem novamente permitidos ao final desse recolhimento. O trabalho conta com as participações especiais de João Taborda tocando bateria em “Killing love” e “Alvorada”, além do trompetista Audryn Souza em “Alvorada”.

 

Lançamento: 

Conde Baltazar

“Bob Uilson” (2020, independente)




Comentários